Proposta aprovada na ONU questiona representação tradicional baseada na projeção de Mercator e incentiva o uso de um modelo considerado mais fiel às dimensões dos continentes

Um novo debate sobre a forma como o mundo é representado nos mapas ganhou força após a aprovação, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, de uma proposta que defende uma representação mais proporcional das dimensões dos continentes. A iniciativa, liderada pelo Togo e apoiada por outros países africanos, busca reduzir distorções históricas que fizeram regiões como África, América do Sul e partes da Ásia parecerem menores do que realmente são.

A resolução foi aprovada nesta sexta-feira (4) com 164 votos favoráveis. Os Estados Unidos foram o único país a votar contra, enquanto seis países optaram pela abstenção.

A discussão está relacionada principalmente à utilização histórica da projeção de Mercator, sistema cartográfico criado no século XVI e desenvolvido originalmente para facilitar a navegação. Embora tenha sido extremamente importante para a cartografia e continue sendo útil para determinadas finalidades, o modelo apresenta distorções significativas no tamanho das áreas à medida que elas se afastam da linha do Equador.

O problema é que essa representação se tornou muito mais do que uma ferramenta para navegação. Ao longo dos séculos, a projeção passou a aparecer em livros escolares, materiais didáticos, mapas oficiais, veículos de comunicação e, posteriormente, em plataformas digitais. Dessa maneira, uma determinada percepção sobre as dimensões relativas dos continentes acabou sendo incorporada ao imaginário coletivo.

Por que a projeção de Mercator distorce o tamanho dos continentes?

A projeção de Mercator foi apresentada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator. Seu principal objetivo era solucionar um problema prático enfrentado pelos navegadores: representar a superfície curva da Terra em uma superfície plana de maneira que determinadas rotas pudessem ser traçadas com maior facilidade.

Para conseguir isso, o sistema utiliza uma projeção cilíndrica que preserva determinados ângulos e direções, mas não mantém as áreas dos territórios em suas proporções reais.

Quanto mais uma região está distante do Equador, maior tende a ser a distorção de seu tamanho aparente. É por isso que países e territórios localizados em latitudes elevadas podem parecer muito maiores nos mapas de Mercator do que realmente são.

A Groenlândia é um dos exemplos mais conhecidos. Em mapas tradicionais baseados nessa projeção, a ilha parece ter dimensões próximas às da África. Na realidade, o continente africano possui uma área muito superior.

O mesmo princípio afeta outras regiões do planeta. A África, localizada em grande parte próxima ao Equador, aparece visualmente menor do que territórios situados em latitudes mais elevadas.

Isso não significa que os mapas de Mercator sejam simplesmente “errados”. A projeção foi criada para uma finalidade específica e cumpre muito bem determinadas funções cartográficas. O problema surge quando uma representação desenvolvida para navegação é utilizada para comparar visualmente a área dos continentes.

Equal Earth aparece como alternativa

Entre os modelos apresentados como alternativa está o Equal Earth, conhecido em português como projeção Terra Igual. O sistema foi desenvolvido para representar as áreas dos continentes de maneira proporcional, reduzindo significativamente o problema de comparação de tamanho existente em projeções como a de Mercator.

O modelo preserva a ideia de que cada região deve ocupar no mapa uma área proporcional à sua dimensão real na superfície terrestre. Para isso, aceita algumas alterações na forma dos territórios, já que qualquer tentativa de transformar a superfície curva da Terra em um mapa plano envolve algum tipo de distorção.

A diferença está no que cada projeção prioriza.

Enquanto Mercator privilegia determinadas propriedades relacionadas à direção e aos ângulos, projeções equivalentes como a Equal Earth dão maior importância à preservação das áreas. Por isso, um mapa Equal Earth pode parecer diferente daquele que muitas pessoas estão acostumadas a ver desde a infância.

África está no centro da discussão

A defesa de uma mudança na representação cartográfica ganhou força especialmente entre países africanos. A União Africana argumenta que a forma como os mapas são produzidos também influencia a maneira como diferentes sociedades enxergam o planeta e a posição ocupada por cada continente.

Durante o debate na Assembleia Geral da ONU, o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, afirmou que a aprovação da proposta representa uma mensagem de valorização da chamada “verdade científica”.

Para Dussey, a discussão não deve ser encarada apenas como uma questão relacionada ao desenho de um mapa. Segundo ele, existe também um aspecto ligado à forma como as populações percebem diferentes regiões do mundo.

Os defensores da proposta sustentam que uma representação mais proporcional pode contribuir para reduzir percepções historicamente construídas sobre a importância e a dimensão de determinadas regiões.

América do Sul também aparece menor em alguns mapas

A discussão não envolve somente a África. A América do Sul também sofre alterações visuais de tamanho em mapas baseados na projeção de Mercator.

Como o continente está majoritariamente localizado em latitudes relativamente próximas ao Equador, sua área pode parecer menor quando comparada a territórios situados mais ao norte ou ao sul do planeta.

O efeito também pode ser percebido em outras regiões, especialmente em áreas localizadas em latitudes mais elevadas. Por isso, uma projeção que preserve as áreas permite uma comparação visual mais próxima das dimensões reais dos territórios.

A questão é particularmente relevante em materiais educacionais. Crianças e adolescentes frequentemente têm o primeiro contato com a geografia mundial por meio de mapas, e a representação utilizada pode influenciar a percepção sobre a extensão dos continentes e países.

Mudança envolve educação, cultura e percepção do mundo

Para os países que apoiam a iniciativa, a discussão ultrapassa a cartografia. A proposta apresentada à ONU afirma que os mapas são instrumentos científicos, culturais e educacionais capazes de influenciar a maneira como as pessoas compreendem o planeta.

A União Africana considera que distorções cartográficas prolongadas podem produzir efeitos que vão além da percepção visual. O documento apresentado no âmbito das Nações Unidas menciona impactos educacionais, culturais, cognitivos, geopolíticos e socioeconômicos.

A proposta também utiliza conceitos como “justiça cognitiva” e “reparação memorial” para defender uma revisão da forma como determinadas regiões são apresentadas.

A argumentação está relacionada a um debate mais amplo dentro da ONU sobre a necessidade de enfrentar desigualdades históricas e estruturais. O texto aprovado pelos Estados-membros também faz referência ao Pacto para o Futuro, adotado em 2024, que estabelece compromissos relacionados à redução de desigualdades e à eliminação de diferentes formas de discriminação.

O novo mapa substituirá imediatamente o mapa tradicional?

Não. A aprovação da proposta na Assembleia Geral da ONU não significa que todos os mapas utilizados no mundo serão imediatamente substituídos.

A resolução busca incentivar governos, organizações internacionais, instituições educacionais e outras entidades a considerar modelos cartográficos que representem de maneira mais proporcional as áreas continentais.

A expectativa apresentada no debate é que projeções como a Equal Earth ganhem espaço principalmente em contextos nos quais a comparação entre as áreas dos continentes seja importante.

Isso não significa, porém, que a projeção de Mercator deixará de existir. Ela continua sendo relevante para determinadas aplicações, especialmente aquelas relacionadas à navegação e à representação de direções.

Na prática, diferentes projeções podem continuar sendo utilizadas de acordo com a finalidade do mapa.

Por que não existe um mapa perfeito da Terra?

A dificuldade fundamental está no próprio formato do planeta.

A Terra possui uma superfície aproximadamente esférica, enquanto uma folha de papel, uma tela de computador ou a tela de um celular são superfícies planas. Ao transformar uma esfera em um plano, algum aspecto necessariamente será alterado.

Dependendo do método utilizado, o mapa pode distorcer áreas, formas, distâncias ou direções.

Por isso, não existe uma única projeção capaz de preservar perfeitamente todas essas características ao mesmo tempo. Cada modelo cartográfico faz escolhas diferentes de acordo com o objetivo para o qual foi desenvolvido.

A projeção de Mercator é um exemplo clássico de sistema que prioriza determinadas características úteis para navegação. Já a Equal Earth foi concebida com outro objetivo: apresentar as áreas dos continentes de maneira proporcional.

Uma mudança na forma de enxergar o planeta

A decisão da Assembleia Geral da ONU coloca novamente em evidência uma questão que há décadas é discutida por cartógrafos, geógrafos e educadores: até que ponto um mapa influencia a maneira como enxergamos o mundo?

A representação cartográfica nunca é uma reprodução perfeita da realidade. É uma interpretação da superfície terrestre, construída a partir de critérios matemáticos e objetivos específicos.

A proposta aprovada agora pretende estimular uma representação que permita ao público compreender melhor as diferenças reais de tamanho entre os continentes.

Para os países africanos que lideraram a iniciativa, a mudança tem ainda um significado simbólico. A intenção é fazer com que a dimensão real da África e de outras regiões historicamente subdimensionadas nos mapas tradicionais seja percebida de forma mais clara.

O debate, portanto, não significa simplesmente trocar uma imagem por outra. Trata-se de discutir qual versão do planeta aparece nas salas de aula, nos meios de comunicação, nos documentos oficiais e nas telas usadas diariamente por bilhões de pessoas.