Presidente criticou modelo de apostas esportivas, disse que clubes terão de buscar outras fontes de receita e afirmou que governo prepara novas restrições ao setor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que pretende encerrar o funcionamento das chamadas bets no Brasil e classificou a decisão como já tomada. A declaração foi feita na quarta-feira (23), durante um ato de campanha realizado na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro.

Ao falar sobre os efeitos das apostas online, Lula relacionou o avanço das plataformas ao uso de algoritmos e ao comportamento dos jovens. Segundo o presidente, o governo precisa enfrentar o crescimento desse mercado.

“Minha preocupação é que hoje tem uma parte da juventude atrelada aos algoritmos. E se a gente não fizer essa luta, os algoritmos vão ganhar. Não tenho nenhum problema em dizer, eu terei o imenso prazer de acabar com as bets”, afirmou.

Presidente critica impacto sobre famílias

Durante o discurso, Lula também criticou a participação das empresas de apostas no financiamento de clubes de futebol. Na avaliação apresentada pelo presidente, parte desse dinheiro tem origem em apostadores de baixa renda.

“As bets ficam financiando os clubes com o dinheiro do pobre. É o pobre que joga, é o pobre que fica doente, é o pobre que se mata. Se tiver algum dirigente me ouvindo agora, pelo amor de Deus, reflita”, declarou.

A fala ocorre em meio à discussão sobre novas medidas para restringir as apostas esportivas e outros jogos de azar online no país.

Lula contesta argumento dos clubes

O presidente também reagiu ao posicionamento de clubes de futebol que se manifestaram contra o fim das bets. As equipes afirmaram, em documento citado pelo InfoMoney, que a proibição poderia representar o “fim do futebol” devido à importância dos recursos provenientes das empresas de apostas.

Lula contestou essa relação e recorreu à história do futebol brasileiro para argumentar que os clubes e a seleção tiveram períodos de grande sucesso antes da existência das plataformas de apostas.

O presidente citou especificamente o Santos de Pelé, Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe, lembrando os títulos mundiais conquistados pelo clube.

Também mencionou os títulos da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002.

“Em 58, 62, 70, 94 e 2002 fomos campeões do mundo sem bet. E o esporte era muito melhor que agora”, afirmou.

Governo prepara novas regras

A declaração de Lula ocorreu enquanto o governo federal avalia uma Medida Provisória com novas restrições para o mercado de apostas online.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (24) que o texto ainda estava em avaliação pelo governo e deveria ser analisado pelo presidente nos próximos dias. Portanto, embora Lula tenha declarado que pretende acabar com as bets, a medida formal ainda dependia da definição do governo no momento da declaração de Durigan.

Informações divulgadas nesta quinta indicam que uma MP sobre o tema poderia ser apresentada nos próximos dias. A proposta em discussão ocorre pouco antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.

Mercado já sofre mudanças regulatórias

O mercado brasileiro de apostas já vinha passando por novas restrições em 2026. Em agosto, por exemplo, o Ministério da Fazenda informou que beneficiários do Bolsa Família, BPC, Fies e programas de renegociação de dívidas não poderiam abrir ou manter contas em plataformas licenciadas. O sistema passou a cruzar os CPFs para bloquear novos cadastros ou encerrar contas.

A legislação também prevê mecanismos de fiscalização e medidas cautelares contra operadores que descumpram as regras estabelecidas para o setor.

Caso o governo avance com uma proibição mais ampla, o setor de apostas esportivas e os clubes que mantêm contratos de patrocínio com empresas do segmento poderão ser diretamente afetados. O alcance definitivo das mudanças, porém, dependerá do texto que eventualmente seja formalizado pelo Executivo.